“Aprendi com a fé que tudo o que você planeja dá certo, e comecei a planejar minha separação. Por falta de diálogo, meu casamento foi esfriando. Sentei para conversar com ele e a sensação foi ter tirado um peso da consciência. Falei que na podíamos viver de aparências e se machucando, e que continuaríamos a ser uma família. Como trabalhamos juntos e dependemos financeiramente um do outro, combinamos compartilhar datas comemorativas, carro, contas, empregada e cuidarmos um do outro para nosso filho sentir o menos possível nossa separação. Estamos morando juntos e fazemos todas as programações familiares como antes. Quanto tempo será que vamos conseguir viver nessa harmonia ? Nunca vi, li ou ouvi notícias que falem de separações bem resolvidas. Será utopia o que estamos vivendo ???”
Cíntia prepara o desembarque pacífico do seu casamento como uma complexa operação de guerra. Tem seus motivos. O principal é preservar o bem-estar do seu filho, em tenra idade, além de uma sociedade comercial, amigos em comum e sólidas famílias compartilhadas. Outro fator importante é conservar o laço de amizade que a une ao Fernando, seu futuro ex-marido.
No curso do processo, Cíntia teve uma curiosa revelação: observou que as pessoas preparam seus casamentos com enormes cuidados, não economizam para fazer uma cerimônia inesquecível, mas, se a relação fracassa, o movimento é inverso. Tudo é decidido de um dia para o outro, basta uma pequena mala com roupas mal guardadas, um retorno improvisado à casa paterna e só depois é que começam as clássicas consultas a advogados e terapeutas para avaliar as conseqüências. Os mesmos casamentos fabricados com paciência e amor são desmontados às pressas e explodem como bombas em traições, violências e mesquinharias diversas.Cíntia denuncia essa seqüência e se propõe a modificá-la na sua própria vida, preparando a separação com o mesmo cuidado com que organizou o casamento. Não ama nem deseja o Fernando, mas o admira como pai, amigo e sócio. Confia nele, não quer feri-lo. Acabou a relação Homem-Mulher, mas não quer perder o resto. Se os casados querem casa, os separados precisam ser vizinhos para que os filhos se desloquem sem dificuldade, conserve tios, avós, assim por diante. Será um projeto idealista ou romântico demais ? Não tenho a resposta pronta, estes são os meus comentários.- Não há revolução sem sangue – diziam os jovens combatentes, dando a entender que nenhuma mudança significativa é possível sem sacrifícios humanos ou materiais. A premissa vale também para a vida afetiva. A revolução da Cíntia não é simples. Pretende terminar um casamento de 12 anos, mas estar fisicamente próxima do ex-marido. Espera encontrar um novo amor, ou assistir a Fernando namorando outra mulher, sem sentir dor, ciúmes e principalmente sem sangue nem violência.As boas separações conseguem esses objetivos, porém operam com um fator essencial: a passagem do tempo, que tudo cura. As rupturas convencionais começam com violência e logram a paz no final do caminho. Não posso evitar a pergunta de qual será o destino da frustração, dos ciúmes, da decepção e da raiva inevitáveis nas relações humanas. Repito: os casamentos são construídos com amor e destruídos com ódio. Por isso me encontro diante de duas alternativas: a primeira, admitir que a Cíntia descobriu uma nova arma que funciona com uma pólvora diferente, que não explode nem machuca, uma pólvora do bem. A segunda é que a pólvora já foi descoberta e continua sem novidades a serviço da agressividade humana. O amor constrói em silêncio, o desamor destrói em estampidos. O desamor amoroso de Cíntia é um belo paradoxo, um projeto brilhante, porém difícil. A hostilidade é um sentimento desagradável, de preferência deveria evitá-lo, porém, nada que o tempo não cure.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
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